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Porque ter um notebook não irá resolver os problemas da sua vida

Posted by paulosacramento On February - 16 - 2010

Faz algumas semanas que um amigo meu comprou um notebook. O cara é estudante universitário e trabalha como programador de sites de Internet. Eu também trabalho criando sites e sei muito bem que possuir um computador que possa ser carregado dentro da mochila é um sonho antigo de qualquer jovem que atue nessa área. Com a recente queda nos preços e o aumento das opções de forma de pagamento, não só meu amigo, mas um número cada vez maior de brasileiros tem tido a oportunidade de carregar um desses. Adquiri meu computador móvel no fim do ano passado e uma breve conversa com o rapaz me fez lembrar de como foi feliz o dia em que aquela caixa do Submarino chegou à minha casa. Entretanto, o breve diálogo me fez perceber que algumas implicações de seu uso não eram nada esperadas.

- E aí cara, curtindo o brinquedo novo? – perguntei

- Tô gostando bastante, o único problema é que desde que comecei a usar não consigo mais trabalhar…

Tanto nos estudos quanto no trabalho, acreditamos que poderemos fazer mais e melhor caso tenhamos um notebook. Não é de se estranhar, pois é isso que o bombardeio publicitário nos faz acreditar. Tem alguma coisa errada então. A maior mobilidade não deveria proporcionar um aumento na produtividade do meu parceiro de profissão? Vamos analisar friamente. Não é de se esperar que uma pessoa que vive escrevendo códigos em um computador aumente alcance mais resultados quando passa a usar com computador portátil? Bem, se pensamos assim é porque estamos nos esquecendo de levar em conta algumas sutilezas que envolvem o uso de tecnologia da informação no cotidiano. Sucintamente, apresentarei aqui quatro pontos negativos relacionados ao uso do computador móvel. A lógica por trás deles é bem simples. Vejamos quais são eles.

O primeiro toca a questão de que quando nos tornamos usuários de um versátil instrumento de processamento de informação, como um computador móvel, estamos nos ligando não só ao novo equipamento, como também aos seus periféricos e redes. E para manter toda essa “infra-estrutura comunicativa pessoal” em pleno funcionamento são necessárias certas tarefas de manutenção. Fios, atualizações de programas, baterias e configurações de software. Todos esses são elementos que entram em cena, cada um deles criando demandas totalmente previsíveis, como carregar a bateria ou a realização de verificações periódicas do antivírus. Estar preparado, ter tudo pronto para ser usado com a mobilidade almejada não é nada fácil. E não é fácil porque essas tarefas demandam tempo. Ou seja, na hora de comprar o notebook sempre vamos crer que iremos acelerar a realização das tarefas que envolvem nosso estudo e trabalho. Todavia, nunca atentamos para o fato de que teremos que perder tempo cuidando de sua manutenção desse poderoso instrumento.

O segundo efeito negativo tange o crucial aspecto da dificuldade de concentração associada ao uso do computador. Assim como eu, meu amigo que acabou de comprar um notebook está feliz pelos hotspots criados em diversos pontos do campus da Universidade Federal de Viçosa. Poder conectar-se à Internet gratuitamente, sem ter que conectar cabos ao computador é motivo para se comemorar. Mas nenhum de nós imaginou que a possibilidade de nos conectarmos à Internet no campus representaria um desafio pessoal quando estivéssemos tentando nos deter em um trabalho mais detalhado, desses que exigem de nós uma separação mental do mundo exterior. Emails, vídeos do Youtube e sites de notícias facilmente se tornam motivo de distração. Reflita por um instante comigo: você consegue imaginar alguém que entra em uma biblioteca para estudar um tema específico e se empolga em meio aos incontáveis livros, ávido por ler todos ao mesmo tempo a ponto de se esquecer o motivo inicial que o levou até lá? Quando “entramos na Internet” nos comportamos de maneira tão diferente da forma como entramos em uma biblioteca por causa não só da imensidão de conhecimento disponível, mas antes de tudo, e principalmente devido à possibilidade de interagirmos com elementos que se tornam acessíveis por meio da rede. A natureza participativa do ambiente virtual é a causadora desse fascínio, dessa atração frenética que para muitos é incontrolável. E quando você pode carregar um dispositivo de entrada no ambiente virtual da Internet, ou você tem em mente as tentações que envolvem seu uso ou provavelmente se entregará ao frustrante ócio. Entre jovens universitários, descartando o uso do computador móvel, já somos constantemente interrompidos por chamadas, mensagens e avisos do celular. Tal fenômeno torna quase impossível levarmos as mais rotineiras tarefas sem que sejamos interrompidos. É muito fácil o computador portátil se tornar mais um fator de perturbação.

O terceiro ponto negativo é freqüentemente esquecido: em termos ergonômicos, não existe posição correta de se usar um notebook. Se está em uma mesa baixa, na altura dos cotovelos, a altura é adequada para os braços mas não para a coluna, fazendo com que seu usuário fique curvado e provocando dores nas costas. Se o computador é colocado em um lugar mais alto, na altura dos olhos, a coluna do indivíduo agradece ao mesmo tempo em que os tendões de seus braços são castigados. O teclado reduzido e o touchpad, associados ao uso ininterrupto podem, provocar DORTs.

Por fim, como quarto ponto negativo, cabe ressaltar que a mobilidade física pode representar um empecilho para a criação de sadias rotinas de trabalho. Lugares físicos pré-determinados para o desempenho de certas atividades são uma boa saída. Sem que tenhamos um roteiro pré-estabelecido de ações é impossível realizarmos algo, produzirmos algo efetivamente.

A verdade é que o capitalismo, na forma em tem se apresentado nos tempos recentes, tem levado à progressiva individualização da força de trabalho. Em termos práticos, isso significa que se você está estudando hoje, há uma grande chance de ser seu próprio chefe quando estiver entrando no mercado de trabalho. E para ser seu próprio chefe, é necessário ter disciplina. A consciência de qual é a hora de sair com os amigos, ou qual o momento de recusar um convite para uma festa, separando esse tempo para responder aqueles emails de seus clientes, é uma aptidão que será exigida cada vez mais de nós. Esse é um tremendo desafio para mim, autor do texto. Tanto o é que já faz tempo que planejo escrever sobre esse assunto. E para falar bem a verdade, é provável que eu só tenha conseguido escrever porque estou em um ponto da biblioteca em que não há alcance da rede de Internet Wi-Fi.

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